A ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) tem aprimorado os
mecanismos para que as operadoras de saúde devolvam ao SUS valores
referentes a gastos com pacientes conveniados atendidos na rede
pública.
É o que afirma o médico Maurício Ceschin, 53, que presidiu a ANS
até novembro de 2012, ao rebater críticas que tem recebido sobre a
suposta morosidade do ressarcimento. Segundo ele, o processo de
cobrança pode se tornar ainda mais eficaz.
Ceschin diz que, nos últimos dois anos e meio, a ANS mudou
procedimentos e conseguiu receber dos planos valores superiores aos
somados nos dez anos anteriores.
"Cada centavo devido ao setor público está sendo ressarcido",
disse.
Folha - A ANS é criticada por não ter mecanismos eficazes para
cobrar dos planos de saúde os serviços prestados pelo SUS. O que
falta?
Mauricio Ceschin - Desde que entrei na agência, em novembro de
2009, essa questão foi prioridade. Fizemos um diagnóstico,
estabelecemos um planejamento, prazos e resultados a serem
atingidos. Montamos um grupo de trabalho com o pessoal do Datasus
para fazer o cruzamento de dados de usuários do SUS e da saúde
suplementar. Foi feito um concurso público e contratados 87
servidores só para o ressarcimento.
E os resultados?
Em dois anos e meio, cobramos R$ 510 milhões dos planos. Do
total, a agência recolheu R$ 166 milhões e R$ 161 milhões foram
inscritos em dívida ativa. Do total cobrado, 64% foram finalizados.
Cobramos, recebemos e inscrevemos em dívida ativa muito mais do que
nos dez anos anteriores. Nunca as operadoras pagaram tanto.
Mas a própria ANS reconhece que ainda há espaço para tornar mais
eficaz essa cobrança.
Sim, é claro. Entre as medidas que adotamos há um acordo com a
Receita Federal para melhorar a identificação dos usuários. Quando
assumi a agência, só 30% dos beneficiários de planos de saúde
tinham o CPF agregado ao seu cadastro. Quando saí, 80% deles tinham
o CPF agregado. Melhoramos a identificação do beneficiário e, com
isso, foi possível cobrar mais.O Ministério da Saúde já iniciou o
processo do cadastro único de saúde. Será uma identificação única e
inequívoca do usuário da saúde.
O setor suplementar de saúde é financiado pelo SUS?
Esse conceito de que o setor suplementar vive às custas do SUS
não procede. As internações de usuários de planos correspondem a
menos 2% do total de internações do SUS. E a menos de 1% da
sinistralidade dos planos.
Também há críticas sobre a porta giratória, o fato de alguns
diretores da ANS serem egressos de operadoras de saúde...
Não acho que valores de honestidade, de retidão e de patriotismo
sejam exclusividade do servidor público. Temos notáveis exemplos,
em vários órgãos do governo, de pessoas que vieram da iniciativa
privada, deram sua contribuição e retornaram ao setor
privado.Conheci o ex-presidente Lula ainda quando era
diretor-presidente da instituição [Hospital Sírio-Libanês] onde ele
frequenta para cuidar da saúde. Ele me convidou pela condição de
especialista e técnico do setor. São 30 anos trabalhando em
diferentes ramos, em operadoras, em hospitais e como consultor.