A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) informou na manhã
desta quinta-feira que o diretor Elano Rodrigues Figueiredo
renunciou a seu mandato no órgão. A Comissão de Ética da
Presidência da República entendeu nesta quarta-feira, que
Figueiredo não teve conduta ética ao omitir em seu currículo
enviado ao governo e ao Senado que trabalhou para empresas privadas
de planos de saúde, como informou O GLOBO. Ele havia tomado posse
no cargo no último dia 2 de agosto.
A comissão recomendou sua demissão. Em carta enviada à
presidente Dilma Rousseff, na noite desta quarta-feira, Elano
Figueiredo diz que a Comissão de Ética entendeu, "equivocadamente",
segundo ele, que deveria recomendar sua destituição do cargo.
"Com isto, mesmo convicto de que não pratiquei nenhuma
irregularidade, seja ética, moral ou legal, penso que o referido
pronunciamento torna insustentável a continuidade do meu mandato".
Elano Figueiredo encerra a nota pedindo à presidente que determine
as providências legais cabíveis.
O advogado foi sabatinado na Comissão de Assuntos Sociais do Senado
em 11 de julho. Sua indicação para a ANS foi aprovada por
unanimidade. No currículo que enviou para subsidiar sua indicação à
diretoria da agência, diz, genericamente, que trabalhou “na gestão
de departamento de advogados”, “em ações de grande vulto envolvendo
saúde”, “na intermediação de conflitos entre segmentos da saúde”. E
também em “atividade regulatória de saúde”.
O senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP), que tentou, em vão,
convencer o Senado a rever a sessão de sabatina que aprovou a
indicação de Elano Figueiredo para a ANS, comentou, na manhã desta
quinta, a demissão do diretor da agência. Para Randolfe, o Senado
não precisava passar por um constrangimento desses, se tivesse
revisto a aprovação do nome de Elano Figueiredo, tanto na Comissão
de Assuntos Econômicos como no plenário.
- O Senado não precisava passar por esse constrangimento. Bastasse
rever seu ato, o que está a altura de sua prerrogativa e
independência como poder. O Senado não precisava pagar um mico
desses. Mico, não! Um King Kong desses! - disse Randolfe
Rodrigues.
No dia 4 de agosto, O GLOBO informou que Figueiredo foi diretor
jurídico da Hapvida pelo menos desde 2006. A empresa é uma das que
são alvo de mais reclamações dos consumidores: na própria lista da
ANS está em 18º lugar entre as cem operadoras com mais queixas. Ele
também atuou como advogado da Unimed. No serviço privado, ajuizou
várias ações contra consumidores e até mesmo contra a ANS.
Figueiredo, na época, disse que citou em seu currículo as empresas
das quais obteve autorização e não mencionou as outras por uma
questão de “sigilo profissional”. Já a HapVida, por meio de sua
assessoria de imprensa, informou que ele nunca foi funcionário da
empresa, mas apenas prestou serviços para as áreas jurídica e
médica, há mais de dois anos, sem contudo saber precisar o período
exato.
Mas num artigo que publicou na revista “Themis”, da Escola Superior
de Magistratura do Ceará, em junho de 2006, intitulado “O
julgamento dos planos de saúde”, Figueiredo assinou como diretor
jurídico da HapVida. A versão digital está disponível na internet.
A assessoria da Hapvida não soube explicar porque isso
aconteceu.
Desde março de 2012, Figueiredo ocupa o cargo de diretor adjunto da
Diretoria de Gestão da ANS. Para esse posto, não precisou de
sabatina, já que é um cargo de confiança.
Apenas três dias depois da publicação da reportagem do GLOBO, o
ministro Alexandre Padilha fez, em reunião no Conselho Nacional de
Saúde (CNS), uma defesa enfática de Figueiredo. Para o ministro,
não havia nada até o momento que desabonasse a indicação. Segundo o
ministro, antes de qualquer decisão sobre o assunto, os
conselheiros deveriam buscar informações verdadeiras sobre a
sabatina de Figueiredo em vez de se pautar por notícias de
jornais.
Com as declarações de Padilha, a presidente do Conselho, Maria do
Socorro de Souza, desistiu de pedir ao Senado a anulação da
sabatina de Figueiredo, momentos depois de formular a
recomendação.
Duas semanas depois das denúncias, a diretoria colegiada da ANS
decidiu que ele ocuparia o cargo de diretor de Gestão e não mais o
de Fiscalização, responsável por analisar os processos que envolvem
as operadoras privadas. Na sabatina no Senado, em julho, ele havia
deixado claro que gostaria de assumir a área de Fiscalização.
Em 21 de agosto, o Idec e a Associação Brasileira de Saúde Coletiva
(Abrasco) encaminharam uma espécie de dossiê à Comissão de Ética,
no qual pediam que o órgão encaminhasse a sugestão de exoneração de
Figueiredo da agência, por ter omitido informação extremamente
relevante em seu currículo.