Os
altos custos da saúde têm acarretado um círculo vicioso em que
hospitais cobram caro pelos serviços prestados e planos de saúde
glosam as solicitações médicas, deixando os beneficiários
desprotegidos no meio dessa guerra. Os casos de desrespeito
cometidos com os que estão fragilizados e necessitam de um exame ou
cirurgia de alto custo chegam a ser cruéis. Quem contratou um plano
e acredita estar garantido na hora da doença, se depara com
situações delicadas que ferem o contrato estabelecido e o Código de
Defesa do Consumidor. Se a doença for grave, ele e a família
pleiteiam toda a tecnologia disponível e necessária para o alcance
da cura e, muitas vezes, buscam ajuda fora da rede credenciada.
Como não existe regulamentação e vivemos hoje, no Brasil, uma
profunda crise de falta de leitos por habitante, tanto na saúde
pública, como na privada, os hospitais privados elaboram suas
próprias tabelas de preços.
Quando a internação é feita em caráter
particular, em situação de urgência, o hospital exige um
adiantamento em dinheiro e, na alta médica, o paciente deverá arcar
com os custos da internação. Isto acarreta um custo muito alto para
o paciente e a questão acaba sendo resolvida no Poder Judiciário,
pois de acordo com a Jurisprudência, o Plano de Saúde deve oferecer
todas as tecnologias necessárias ao paciente para que ele possa
enfrentar o seu tratamento. Se o consumidor consegue provar na
justiça que o tratamento é indispensável ao alcance da cura e não
está disponível na rede credenciada, certamente ele vencerá a
demanda judicial.
Para
conter custos, muitas operadoras têm construído uma rede própria de
hospitais, ambulatórios e centros de exames laboratoriais. Dados da
Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) encomendados pelo
Estado mostram que, no mínimo, 40% dos planos de saúde têm
prestadores próprios. Essa rede de atendimento, chamada de
verticalização do sistema, restringe a liberdade de escolha do
cliente, obrigando-o a só utilizar os prestadores que pertencem à
operadora, mesmo quando ela vendeu o plano com o chamariz de
hospitais como o Einstein ou o Sírio-Libanês.
Outra
saída para o impasse do alto custo das despesas hospitalares X
glosas, encontrada pelos hospitais e planos, tem sido os ditos
“pacotes”. Se uma determinada operadora fechar um pacote com um
determinado hospital para a realização de cirurgia bariátrica, por
exemplo, não existem mais glosas e nem abusos na cobrança.
Entretanto, o paciente tem a sua preferência médica e, se esse
médico não operar no hospital do “pacote”, está criado novo
problema, já que o paciente escolhe primeiro o médico para depois
escolher o hospital. Além disso, se o paciente tem um livro da rede
credenciada com diversos hospitais à sua disposição, a operadora
não pode determinar um único hospital para realização daquela
cirurgia. Esse é mais um motivo para que a autorização de cirurgia
em hospitais da rede credenciada seja obtida pela via
judicial.
João
Ladislau Rosa, presidente do Cremesp (Conselho Regional de Medicina
do Estado de São Paulo), é contra a verticalização. Rosa afirmou em
uma entrevista ao Estado de S. Paulo que só quem ganha com isso é o
plano de saúde. Quando a livre escolha deixa de existir, não há
vantagens para o usuário. E, mesmo quando o paciente inicia o
tratamento no local de sua preferência, pode ser transferido a
qualquer momento para a rede própria do plano. Além disso, ele
apontou prejuízos para a classe médica, que também fica refém da
operadora que o contratou, tendo suas decisões, como a de solicitar
exames, limitadas ou tolhidas.
A
rede própria chega a representar 80% das opções oferecidas, os
caderninhos com a listagem dos prestadores de serviços, em letras
diminutas que poucos leem, deixam de existir e passaram a ser
substituídos por aplicativos de celulares e computadores, que
parecem facilitar a vida do cliente, mas só dificultam, já que é
uma máquina que o atende. Ao ligar, o cliente é direcionado pela
atendente para a rede própria, caindo sempre na mesma armadilha e
labirinto.
Sob
alegação de que a verticalização reduz custos, os planos de saúde
armam sua teia de monopólio e têm como presas os doentes. Algumas
operadoras se tornaram parasitas do SUS, já que cobram barato dos
beneficiários e, quando eles necessitam de atendimentos complexos,
recorrem ao Sistema Único de Saúde porque o plano não possui
estrutura para atendê-los.
A ANS
acaba de impedir que 47 operadoras comercializem 111 planos, por
mau atendimento e descumprimento de prazos, negativa de coberturas,
mas isso só não resolve a questão. Muitas operadoras descredenciam
prestadores, sem sequer ter o respeito de informar seus clientes.
Os doentes que chegam para o atendimento, às vezes, são informados
no balcão. O descaso fere o art.17 da lei, que diz que a inclusão
de credenciados e prestadores dos produtos “implica compromisso
para com os consumidores quanto à sua manutenção ao longo da
vigência dos contratos. É facultada a substituição de entidade
hospitalar, a que se refere
o caput deste artigo, desde que por
outro equivalente e mediante comunicação aos consumidores e à ANS
com trinta dias de antecedência, ressalvados desse prazo mínimo os
casos decorrentes de rescisão por fraude ou infração das normas
sanitárias e fiscais em vigor.”
Alguns executivos que atuam nas operadoras até já
admitiram que a verticalização dos planos de saúde gera um conflito
de interesses, pois a fonte pagadora é a mesma que autoriza os
procedimentos. Todos somos contra o desperdício e a alegação de
minimizar custos só seria admissível se o beneficiário estivesse
sendo respeitado, como parte importante de uma relação comercial e
como ser humano. Mas ele não está sendo bem atendido de nenhuma
forma, o estresse a que vem sendo submetido na hora da doença, o
tempo que perde em telefonemas, idas e vindas, custa caríssimo e
tem um preço incalculável em planilhas. Tudo vai além do que
entendemos como razoável, do ponto de vista da lei e das relações
humanas.
Problemas de comunicação entre as partes também
colaboram para que o conflito permaneça. A relação operadora x
cliente está cada dia mais desigual e desumana. Será que o governo,
a quem cabe a fiscalização, também está doente e tem faltado ao
trabalho?